02/12/2011
Por Mariana Paz*
A decisão de ingressar no Programa de Proteção, por vezes, apresenta-se aos interessados como o único caminho de resguardar suas vidas, de forma a minimizar os riscos e sentirem-se seguros. Sendo assim, muitas famílias ingressam com crianças e adolescentes e, enquanto técnicos, nós somos testemunhas do quanto essa decisão provoca uma mudança devastadora.na vida desses.
Algumas vezes, pelas circunstâncias dos fatos, as famílias saem de seus locais de moradia com pouco ou nenhum objeto, ficando para trás seus pertences, sonhos, a bola ou boneca preferida, amigos da escola, o primeiro namorado(a)... Também deixam uma grande marca de dor na família, quando a morte – às vezes por violência – separa pais de filhos, tios de sobrinhos, avós de seus netos.
Como criar um diálogo com crianças e adolescentes sobre a vida na proteção, que passa a ser cheia de regras rígidas, driblando a desconfiança dos outros, precisando inventar histórias que não são suas?
Enquanto prática de intervenção, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) elenca avanços conceituais e práticos que nos orientam a atuar junto a esses sujeitos. Nosso trabalho de acompanhamento é também construído a partir da relação de transferência que cada sujeito estabelece com membros da equipe técnica que os acompanha. A relação de transferência designa, em psicanálise, o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada.
Com as crianças e adolescentes não é diferente. De forma que esta relação é construída com muitos avanços e recuos, pois, mesmo enquanto equipe de apoio, são estranhos que passam a conviver com suas famílias, num mundo desconhecido por todos, tendo que ser povoado por cada palavra, pela permissão da criança e do adolescente de participar e investir em suas vidas, na reconstrução ou continuidade delas. Sabemos que algumas perdas (subjetivas e objetivas) são concretas, visíveis e outras, não. É possível perceber os sinais dessas em seus atos, desordens e sintomas, endereçados à equipe através de desenhos, reivindicações e pedidos, (dos mais variados que a criança ou adolescente possa alcançar em seu imaginário) ou por um pulo em nossos braços e um beijo no rosto, nos autorizando a avançar alguns passos no seu mundo, desconhecido e desabitado, que precisa de outros.
Somos surpreendidos por esses sujeitos que constantemente nos ensinam a continuar, a avançar na vida, pois proteção consentida não é cárcere. As crianças e adolescentes vêm nos mostrando que é possível reinventar-se e modificar a relação com o mundo e com as pessoas.
Mesmo quando os elementos que se têm são violência, dor, separação, perdas, a capacidade desses sujeitos elaborarem suas dores é sublime. Nós, técnicos, somos privilegiados por acompanhar formas de desejar investir na vida, que nos regozija na causa que nos mobiliza – a luta e garantia por Direitos Humanos – e o desafio de trabalhar no Programa de Proteção.
*Mariana Paz é Psicóloga do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP), e aluna do curso de especialização em Psicologia e Direitos Humanos da Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).
comentários 1
07/05/2012
MARIA FLACINETE SANTOS DUARTE
quanto custa cada publicação? gostria de obter, os temas são muito bons.
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