DO IBURA A FLORENÇA: UM DIÁLOGO ENTRE JOVENS E DIREITOS HUMANOS
LUDMILA CERQUEIRA CORREIA
Na semana passada, dei uma “aula” sobre direitos humanos numa escola pública de ensino médio de Florença (Itália), a convite de um professor de História e de Filosofia. Constatar a necessidade de educar em direitos humanos naquela escola me fez lembrar do projeto “Agente Jovem Protetor dos Direitos Humanos”, realizado pelo GAJOP durante o ano de 2005, e confirmar que a sede da juventude pelo tema dos direitos humanos é grande.
A vontade de mudar uma realidade repleta de violações de direitos humanos era grande, tanto dos jovens do Ibura que participaram daquele Projeto, como daqueles da escola de Florença. Com relação a esses últimos, percebe-se um grande interesse pelo Brasil: o que acontece nesse país; as favelas; como é a vida; quais as diferenças entre o Brasil e a Itália. Todas as perguntas me lembravam os rostos das meninas e meninos do Ibura; de Deus nos Acuda; de Boa Viagem; do Pina e das histórias de violações de direitos humanos que estes contaram durante as oficinas do Agente Jovem, em muitas das quais eles eram as vítimas.
E assim foi estabelecida a ponte: direitos humanos pelo olhar dos jovens de uma das cidades mais violentas do Brasil, Recife, aos jovens de Florença, o berço do Renascimento. Vale registrar que a “ponte” foi construída com algumas técnicas utilizadas nas oficinas do Agente Jovem: naquele momento, a metodologia era fundamental. Mais do que uma aula ou palestra sobre direitos humanos numa escola italiana, aquele momento era um encontro de países (com realidades diversas, mas com pontos em comum), de olhares; uma troca de experiências, um intercâmbio de idéias, de culturas; na perspectiva no método Paulo Freire. Segundo Freire, a educação em direitos humanos deve ser dialógica, adotando o educador posturas que levem à colaboração, união, organização, síntese cultural e reconstrução do conhecimento.
A dinâmica utilizada, o confronto com o outro (pessoas e culturas diversas), o diálogo entre diferentes, as reflexões, as dúvidas, a construção, o silêncio, a inquietude do momento e a inquietude levada pra casa somente reafirmaram a necessidade da educação em direitos humanos. Para aqueles jovens, que estão concluindo o ensino médio, era a primeira vez que se falava sobre direitos humanos na escola.
Se para os jovens do Recife, o Agente Jovem tinha como objetivo capacitá-los e envolvê-los na construção das bases sócio-políticas do sistema de proteção dos direitos humanos, para os jovens florentinos esse encontro era um meio de dialogar sobre um tema que, segundo eles, “se fala e se teoriza muito”, e ressaltaram: “precisamos de direitos humanos na prática”. Este era o desejo daquele grupo italiano, que se identifica imediatamente com o desejo dos jovens brasileiros: a efetiva proteção dos direitos humanos.
A educação em direitos humanos é um tema debatido em todo o mundo, e se constitui prioridade quando se almeja uma sociedade verdadeiramente democrática. Assim, faz-se necessária a implementação de processos de ensino-aprendizagem que promovam e fortaleçam o exercício pleno dos direitos humanos, nos diversos níveis de educação. E com os jovens, este é um ótimo começo.
Florença, Itália, 20 de fevereiro de 2007.
• Ludmila Cerqueira Correia é advogada, mestranda em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba, bolsita do Programa ALFA na Università degli Studi di Firenze (Itália).
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