UMA TROPA DE INCOMODADOS
Baseado nas fontes do igualmente polêmico livro “Elite da Tropa”, o filme é basicamente um “relato de guerra”. Narrado pelo personagem do impressionante ator Wagner Moura - um capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da PM do Rio de Janeiro - seu roteiro é uma paradoxal “ficção baseada em fatos reais”. Personagens imaginários lidam com situações e fatos reais de forma desconcertante. Temas como tráfico de armas, de drogas, tortura, execuções sumárias e corrupção são tratados com tamanha crueza que é possível desejar, em alguns momentos, que esta fosse apenas uma obra de ficção, em todos os seus aspectos. Dadas às circunstâncias é bem possível imaginar o porquê dos incômodos, não? Bem, o primeiro deles é o provocado por uma boa obra cinematográfica. Aquele que persiste por horas depois da leitura dos créditos, nos desafiando e impelindo a uma segunda ou terceira sessão. Elemento essencial na composição desta sensação é, com certeza, a narração. Se este era o objetivo do diretor, ele conseguiu. Tal ângulo de visão instiga, cutuca. Principalmente a nós, defensores/as de Direitos Humanos. Não só pela maneira como se materializam nossas denúncias (torturas, crimes, execuções, etc.), mas principalmente por retratar uma lógica perversa na administração desses conflitos. Ótica que introduz a história e conduz seus personagens até o tiro final. Seu conteúdo pode ser sintetizado nas três opções dadas a todo policial por seu narrador: corromper-se, omitir-se ou ir para a guerra. Realmente, o desenrolar não indica nenhum outro trajeto ou atalho minimamente democrático para essa questão. Entretanto, absorver a visão do policial-narrador de forma acrítica é negar diversas outras visões de segurança pública que são viáveis e se contrapõem à violência policial como solução para a criminalidade. A afirmação de tal inexistência é em si a negação de outras formas de encarar o problema, a negação do diferente. Na verdade, é a concretização de um projeto cruel de uma sociedade através do qual a polícia assume um papel sanitário e a população de baixa renda um papel de alvo. Outro incômodo já não tem seu ponto de partida nas telas, mas sim na reação do público. É realmente assustador constatar que uma significativa parcela da população brasileira se sente contemplada nas idéias de crime e punição empunhadas pela Tropa de Elite. Talvez porque as saídas apresentem resultados rápidos, nem que sejam cemitérios cheios. É de se perguntar onde estão os milhões investidos para educação popular e construção de uma cultura de paz. Bem... esse é outro desconforto e tema para outro artigo. Ainda podemos citar o mal-estar de parte da mídia que assumiu uma postura “policialesca”, taxando o filme de fascista. “O ritmo de filmagem é rápido, não deixa o espectador pensar, é fascista!”, gritaram uns. “A música na subida do morro é rock and rool, isso é coisa de fascista!”, deliraram outros. Cada dia que passa se torna mais interessante ver como setores midiáticos estão ficando esquizofrênicos! Por favor, senhoras e senhores sejamos mais centrados e equilibrados em nossas críticas. Tais ataques não colaboram para uma reflexão séria sobre a obra, nem quanto à realidade que ela busca representar. Pois, enquanto narrativa ou elemento para reflexão, a mesma lógica criticada neste artigo, é tão válida quanto qualquer outra. Tropa de Elite cumpre o papel de uma boa ficção que simplifica e retrata parte de uma dada realidade. Tem, acima de tudo, o mérito de reproduzir de forma a instigar a crítica de uma visão de mundo que se traduz em práticas muito concretas. Os últimos de nossa lista, porém não menos afetados pela tropa, são os agentes de segurança. Com a proximidade do lançamento oficial do filme, a preocupação fardada cresceu, pois a película escancara práticas desmentidas até o limite do bom senso. Por falar nisso, ninguém pode deixar de reconhecer o esforço sobre-humano das Polícias Militares no sentido de negar algumas coisas e relativizar outras. Na semana de estréia foram televisionados pelo menos quatro debates com participação de policiais e até mesmo integrantes do BOPE. Momentos onde o incômodo militar era quase palpável. Sem falar nas matérias veiculadas pela mídia escrita, onde, de alguma forma, oficiais opinavam sobre o teor de realidade na ficção. Além dessa movimentação institucional, algumas reações individuais têm chamado à atenção do público. É o caso de policiais honestos e/ou vítimas da corrupção de suas próprias corporações que têm se manifestado tímida e anonimamente em apoio ao que consideram uma denúncia. Por outro lado, situações lamentáveis se associam ao longa-metragem. Alguns dias atrás, um agente penitenciário teria supostamente cometido suicídio num cinema da região metropolitana do Recife, logo após a polêmica exibição. Posteriormente a imprensa divulgou que o agente estava sob suspeita de facilitar a entrada de drogas na unidade prisional onde trabalhava e que já havia assistido duas vezes a cópia pirata do longa-metragem. Atribuir o possível suicídio ao filme é uma irresponsabilidade sem tamanho. Desrespeito com uma obra cuja mensagem não é a da prática da violência ou da desvalorização do indivíduo. Assim como elucubrar sobre questões subjetivas que ligassem o agente a obra de ficção seriam, no mínimo, prematuras. Entretanto, não podemos deixar de manifestar alguma surpresa com os elementos que se comunicam. De volta à terra firme, resta a constatação de que apesar da verdadeira tropa de incomodados criada pela obra de José Padilha, ainda há muito debate a ser provocado. Esperamos que outros mini-tsunamis como este diminuam o tempo de calmaria que costuma aparecer entre os bons filmes brasileiros.
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