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MUDARIA O NATAL OU MUDEI EU?
LUCIANO OLIVEIRA
Para Pepinha, que foi para o céu depois de viver 99 natais!
As festas de Natal amolecem meu coração. Todo o meu verniz sociológico - aquele que me adverte contra a transformação do advento do Menino-Deus em festa pagã movida pelos interesses do comércio - todo o meu verniz, como dizia, derrete assim que ouço Noite Feliz, o clássico do alemão Franz Grüber, ou White Christmas, canção americana tornada mundialmente conhecida na voz de Bing Crosby. Entre nós, ela foi gravada há muitos anos por Nelson Gonçalves, numa versão que começa assim: “Láááaa onde a neve cai...” Isso, num país tropical e sob o calor abrasador de dezembro, é surrealismo puro. E no entanto, nessa época do ano chego a me comover com qualquer Papai Noel de loja de eletrodomésticos... Mistério.
Mas a minha favorita, aquela que ao mesmo tempo mais mexe e apascenta meu coração, não tem pinheiros de plástico nem neve de algodão. É Boas Festas, marchinha de Assis Valente gravada inicialmente nos anos 30 do século que passou por Carlos Galhardo: “Anoiteceeeuu, o sino gemeu...” Comove-me particularmente o trecho em que o artista diz ter pensado que a “felicidade” fosse uma “brincadeira de papel”, para depois, triste, resignar-se: “Já faz tempo que pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem...” E recomeça: “Anoiteceeeuu...” A versão mais conhecida e tocada, entra ano e sai ano, não tem letra. É uma gravação com um instrumento solo, uma harpa paraguaia, que nessa época do ano ajuda a vender muito fogão e geladeira. Mas ainda assim me comovo. Mistério outra vez. Ou apenas a magia da arte.
Pois bem. Rememorando essas velhas canções que me remetem ao que vai se tornando uma longínqua infância, observo que esse é um gênero que já não se pratica. Ou seja: os velhos sucessos continuam incessantemente tocados, praticamente sem renovação. Curiosamente - talvez sintomaticamente -, as únicas canções natalinas posteriores a esses clássicos que me tocam e emocionam, pelo menos que eu me lembre, são dois jingles: o primeiro, um comercial do extinto Banco Nacional em que um coro de crianças marejava o coração dos telespectadores quando atacava: “Quero ver / Você não chorar / Não olhar pra trás / Nem se arrepender do que faz...” O outro é o comercial de fim de ano da Globo - “Hoje é um novo dia / De um novo tempo / Que começou...” -, cujo impacto, certamente, deve-se pelo menos em parte à sua repetição todos os anos, invariável como o Especial de Roberto Carlos.
À parte isso, o som das celebrações de Natal, hoje em dia, é isso mesmo: som! Muito som, nesses eventos que fazem do Carnaval, do São João e até mesmo da Páscoa um mesmo mega-show reunindo milhares de pessoas eletrizadas pela barulheira de Ivete Sangalo e companhia. O que aí se toca (axé, pagode, funk... ugh!) é o que também se toca nessas outras ocasiões. É como se a música de Natal, igual à marchinha de São João ou mesmo o chorinho, tivessem desaparecido. Expressões de um país mais ameno, é como se esses doces gêneros tivessem sido engolidos por uma nova estética gerada por uma realidade mais brutal e mais barulhenta - naturalmente, reproduzindo a brutalidade e o barulho.
Valendo-me de um verso famoso de Machado de Assis, perguntei-me no título se teria mudado o Natal ou se mudei eu. A resposta é certamente dupla. Eu mudei, porque envelheci; e o Natal também mudou, porque... envileceu! Estarei fazendo um mero jogo de palavras? Não creio, embora reconheça que a minha opinião, por ser minha, é suspeita. Afinal, tudo passa e tudo muda sobre a terra. Os valores estéticos, também. Talvez isso que hoje me incomoda venha algum dia a ser recordado com nostalgia por um jovem de hoje que padece suas primeiras dores de amor escutando o que para mim não é senão barulho ... Que cada geração invente sua própria poesia!
• Luciano Oliveira é professor do departamento de Ciências Sociais da UFPE e colaborador do GAJOP.
• O Opinião Gajop foi criado para fortalecer a comunicação entre o GAJOP e todos aqueles que compartilham dos ideais de promoção e defesa dos Direitos Humanos, contribuindo para o fortalecimento do Estado e da Sociedade, na perspectiva da vivência plena da cidadania e da indivisibilidade dos Direitos Humanos. Caso você não queira mais recebê-lo, por gentileza, escreva para vpress@nlink.com.br
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