VIOLÊNCIA E CARNAVAL

MARIÂNGELA RIBEIRO

Carnaval e violência estão no âmbito do não planejado, do não racionalizado – nos termos de Weber. Ambos apresentam-se na modernidade como quebra da rotina, como algo que a suspende por um instante. Porém, cada um ocupa um pólo oposto no chamado “extra-ordinário”: o carnaval está no positivo e a violência, no negativo.

Como observa Roberto DaMatta, o mundo ordinário é aquele das obrigações que garantem a sobrevivência: trabalho, ordem, hierarquia; o extra-ordinário pode aparecer tanto como inesperada desordem (catástrofes naturais, criminalidade) quanto como momentos de liberdade, de ausência de hierarquias (rituais festivos como o carnaval e procissões).

A festa carnavalesca seria um espaço de inversão do cotidiano, onde a harmonia se realiza por músicas que congregam e fantasias (em duplo sentido) que libertam. Nos dias do Rei Momo, não há distinção de classe, cor, status. Nas palavras de DaMatta (1981): “[...] é a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo como excesso – mas agora como excesso de prazer, de riqueza, de alegria e de riso”. Já a violência se define por diversas formas de agressão e excessos que desestabilizam a harmonia e reforçam a dureza e miséria já vivida cotidianamente. Assim, apesar de estarem num âmbito avesso à rotina, são dois “eventos” que se excluem.

Porém, as cenas de brutalidade nas últimas prévias carnavalescas do Recife e Olinda[1] nos colocam a necessidade de refletir, mais uma vez, sobre os desafios dessa cultura da violência que sempre marcou o país.

Lembro aqui do estudo de Franco[2] sobre como a violência interpessoal era um código socialmente aceito (“código do sertão”) entre os homens livres no Brasil imperial a ponto de, em momentos lúdicos, se desenvolverem naturalmente e ocasionarem mortes – alguma semelhança com o que ocorre em nossas festas contemporâneas não será mera coincidência... O que a autora demonstra é que, neste contexto, a violência não é exceção, mas constitutiva da relação comunitária. Num mundo marcado pela falta de uma verdadeira ordem pública, pela precariedade material e pelo favor como mediação política, soluções pela força, brutais, são “naturalizadas”, mesmo que a sociedade sinta-se indignada e refém. Estudos que abordam esta questão em termos mais atuais, como os de Sérgio Adorno, por exemplo, reiteram esta tese.

Assim, atos violentos, entre nós, nunca foram eventos “extra-ordinários”. Ao contrário, tornaram-se uma rotina da qual não conseguimos escapar nem mesmo em momentos de “inversão” como o carnaval.

Aliás, vale observar que o carnaval pensado nestes termos vem se tornando “coisa do passado”. Os trios elétricos com seus cordões de isolamento e dos sambódromos divididos em camarotes e arquibancadas são exemplos de como a festa tem se segmentado – indo ao encontro da distinção social real. Neste contexto cada vez menos utópico, a violência vem crescendo durante o evento nas grandes capitais. Mesmo no Recife onde, em grande medida, ainda se preserva o carnaval de rua, aquela festa que une o “povo” sem distinção e/ou discriminação.

É como se, num mundo marcado não mais pela opressão das fábricas, mas pela exclusão e falta de perspectiva, a inversão tivesse perdido seu sentido. Para que “deixar a festa correr” quando se sabe que “amanhã tudo volta ao normal”? Será que a Noite dos mascarados de Chico Buarque também se tornou coisa do passado?

Acredito que não. Nesse mundo sério e racional, baseado num individualismo sem limites, o carnaval (extra-ordinário) tem uma função importantíssima – embora depois tudo retorne ao seu lugar. A função de reafirmar algumas características da identidade nacional, de unir coletivamente todos/as em zonas e valores ligados à alegria, ao utópico, apesar dos cordões delimitarem em certo sentido esta união.

Daí a necessidade do Estado garantir que a festa carnavalesca ocorra de maneira tranqüila – disponibilizando um número suficiente de policiamento e demais profissionais que assegurem o acontecimento do “extra-ordinário”.

Além disso, a violência não será resolvida enquanto autoridades agirem com o descaso como o demonstrado pelo presidente da Assembléia Legislativa de Pernambuco, Guilherme Uchôa, ao dizer que a violência do último dia 04 foi super-dimensionada, pois não resultou em morte ou estupro (alguns dias depois, foi confirmado o falecimento já citado). Não será resolvida enquanto não assumirmos que ela só pode ser explicada por vários fatores[3], a saber, estruturais (desigualdades), culturais (códigos morais que incentivam a violência) e institucionais (impunidade) que são cotidianamente reforçados por um Estado patrimonialista que não está a serviço do interesse público. Não será resolvida enquanto não for combatida por suas diversas formas e pelos diversos atores sociais e políticos que compõem a sociedade.

--------------------------------------------------------------------------------

[1] No dia 04/02, durante o desfile do Bloco Balança Rolha em Boa Viagem, a violência se espalhou em arrastões, “chuva de garrafas” e resultou na morte de Edmilson Araújo da Silva de 23 anos; No dia 11/02, o jovem Robson Leite da Silva foi assassinado com estilhaços de garrafas de vidro numa prévia em Olinda.

[2] FRANCO, M.S.C. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Àtica, 1976.

[3] Para aprofundamento, conferir: OLIVEIRA, L. A dupla face da violência. Coleção Oxente, MNDH, 1994.

 

 

Mariângela Ribeiro é mestre em sociologia e faz parte da equipe do GAJOP.




www.gajop.org.br



Endereço: Rua do Sossego, 432. Boa Vista. Recife/PE - Brasil - Fones: (81) 3222.1596/ 322.2036. Fax: (81) 3223.0081

O Opinião Gajop foi criado para fortalecer a comunicação entre o GAJOP e todos aqueles que compartilham dos ideais de promoção e defesa dos Direitos Humanos, contribuindo para o fortalecimento do Estado e da Sociedade, na perspectiva da vivência plena da cidadania e da indivisibilidade dos Direitos Humanos.

Caso você não queira mais recebê-lo, por gentileza, escreva para vpress@nlink.com.br