|
O CASO NARDONI E A JUSTIÇA DO POPULACHO
LUCIANO OLIVEIRA
Impossível conter a indignação. E submeter à linguagem aos bons modos. Esse caso Nardoni, se alguma prova ainda era necessária, está mostrando que a sociedade brasileira desceu a níveis de baixeza incompatíveis com formas civilizadas de convivência. Inclusive na hora de punir! Pois é, acertaram: minha indignação acima não é contra o crime bárbaro que vitimou a pequena Isabela. É contra esse circo de horrores montado em torno dos acusados, onde se reúnem, numa simbiose perfeita, o nosso pior jornalismo com o nosso populacho mais escrachado!
Para evitar mal entendidos, deixe-me reafirmar o que já está dito acima com todas as letras: Isabela foi vítima de um crime bárbaro. Jogar uma criança de seis anos, provavelmente agonizante, pela janela de um sexto andar, é uma dessas coisas que nos deixam sem saber o que dizer. E que exigem uma cabal reprovação moral e a punição mais severa. Esta, todavia, até para diferenciar a sociedade da barbárie, para preservar a primeira da contaminação da segunda, deve ser administrada com toda a dignidade própria à liturgia da justiça. Fora isso, regredimos a uma justiça de apedrejadores.
As dúvidas a essa altura são impossíveis. Aquilo que ninguém gostaria de admitir - que um pai empurrou a filha semimorta no vazio para esconder uma agressão homicida - impõe-se com base numa enxurrada de provas técnicas capazes de convencer o mais incrédulo dos homens. A insistência do casal em manter uma história surrealista só depõe contra eles. Louve-se o trabalho da polícia científica de São Paulo, a única coisa decente nessa história escabrosa. Fossem outros os tempos, ou fossem outros os acusados, e a polícia judiciária já teria obtido uma confissão completa com base na metodologia tradicional entre nós: a porrada. Para quem ainda tem dúvidas de que ela pode trabalhar de maneira civilizada, respeitando o devido processo legal, o caso é uma lição e tanto. Uma vez concluída essa parte, porém, a coisa tem desandado.
Temos assistido pela televisão, ao vivo, a toda espécie de perversão. Da sofisticada GloboNews aos programas policiais dos canais abertos, ávidos de carniça, todos se comprazem em mostrar imagens que poluem a noção de uma justiça civilizada. Réus sendo algemados na garagem do prédio onde moram antes de entrarem no camburão. Para quê? Qual o sentido de imobilizar pessoas já imobilizadas pela presença de meia dúzia de musculosos agentes da lei e pelo pavor de uma multidão vociferante do lado de fora? Boçalidade da parte da polícia, sadismo reprimido do lado dos espectadores. Reprimido mas bem servido por imagens mostrando o papelão onde dormiu Ana Carolina Nardoni - a qual, de resto, num gesto de dignidade, recusou-se a dormir em cima de um colchonete imundo.
Não se trata evidentemente - meu Deus! Será necessário dizê-lo? - de idealizar criminosos, mas simplesmente de lembrar que uma opinião pública que se compraz em exibições desse tipo rebaixa-se aos crimes que condena. Esse é o dilema de toda paródia de justiça como essa. O mais condenável dos assassinos, ao ser imobilizado, torna-se um corpo inerte contra o qual qualquer ação violenta não prevista em lei é uma covardia. Ponto final. Como disse certa feita o imenso escritor brasileiro Guimarães Rosa, “o que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.” Ponto final de novo!
•
Luciano Oliveira é bacharel em Direito, mestre e doutor em Sociologia. É professor do Departamento de Ciências Sociais da UFPE e colaborador do GAJOP. • O Opinião Gajop foi criado para fortalecer a comunicação entre o GAJOP e todos aqueles que compartilham dos ideais de promoção e defesa dos Direitos Humanos, contribuindo para o fortalecimento do Estado e da Sociedade, na perspectiva da vivência plena da cidadania e da indivisibilidade dos Direitos Humanos. Caso você não queira mais recebê-lo, por gentileza, escreva para vpress@nlink.com.br
|