INVISIBILIDADE DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
ANA PAULA INÁCIO
No dia 04 de dezembro de 2006, o número de homicídios de mulheres no Estado de Pernambuco já chegava a 290. O dado pode ser contatado nos jornais locais. O número é assustador, no entanto, não possui o poder de refletir de fato toda a tragédia e dor nele contida, tragédia de ontem e de hoje, que, infelizmente, ainda se anuncia para o futuro.
Os avanços no sentido de diminuir a violência contra a mulher no Brasil são inegáveis, mudanças que se traduziram das mais variadas formas: discussões mais corajosas e realistas sobre o assunto, produção de estudos sobre a incidência de atos violentos contra a mulher e como conseqüência, alterações necessárias à legislação. Contudo, o desafio ainda é imenso e não nos desobriga de perguntar que tipo de sociedade é essa que anuncia sua modernidade aos quatro ventos, mas que se mostra primitiva ao abrigar a barbárie do assassinato de mulheres.
A violência sofrida pelas mulheres está longe de ser somente pessoal e cultural. Ela possui uma conotação política monstruosa, na medida em que consiste no resultado das relações de poder, de dominação e de privilégios estabelecidos na sociedade em detrimento da mulher. Em outras palavras, a violência é o mecanismo primordial de manutenção da mulher em posição subordinada àquela do homem, seja na família, seja na esfera pública. Vislumbrar uma vida sem medo para elas, em qualquer um desses espaços, é perfeitamente possível desde que estejamos dispostos a lutar contra padrões culturais que subestimam, negligenciam e banalizam a ocorrência e conseqüências desse fenômeno, principalmente quando acontece no âmbito privado.
A violência doméstica em especial precisa ser anunciada, gritada, enquanto se tiver voz. A família que deveria ser o espaço de proteção, hoje não é mais que um espaço de guerra, onde a mulher vive o terror incrivelmente potencializado e mais danoso porque é vítima daquele por quem deveria ser amada. Do mesmo modo, vê seus filhos serem testemunhas e muitas vezes vítimas diretas de agressões, condutas que certamente serão reproduzidas por eles nas suas relações fora do mundo familiar e futuramente nos seus lares. Faz-se necessário descortinar esse quadro triste de violência no seio familiar. Os atos violentos ocorridos no silêncio e entre quatro paredes, precisam ser vistos e ouvidos. Evitando que todos sejam afetados na medida em que a célula – máter da sociedade enquanto está matando suas mulheres também está criando indivíduos contaminados pela violência.
Assim, a forma como trataremos esse problema não reflete somente nossa preocupação com a realidade de violência vivida pelas mulheres, mas, é definidora de qual projeto de sociedade queremos e estamos construindo para um futuro próximo.
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Ana Paula Inácio é estudante de Direito e estagiária do GAJOP.
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