PÃO E ROSAS

MARIÂNGELA RIBEIRO

No Dia Internacional da Mulher, todos os holofotes se voltam para nós, mulheres, de ontem, de hoje e de amanhã. Diversas são as reportagens: umas focalizam o que significa “ser mulher” em sociedades historicamente marcadas pelo patriarcalismo, outras enfatizam os “avanços” obtidos através das lutas feministas e de mulheres nas mais diversas esferas da sociedade, há as que relembram das várias formas de violência de gênero, da tendente “feminilização da pobreza”, etc.

Seria ótimo não precisar ter um dia para lembrar a nós mesmas e ao mundo das violências e discriminações sofridas. Mas, como ainda não é o caso, diante da tarefa de escrever algumas palavras para esta data, desde a noite de ontem eu penso sobre o que dizer. Recorrer aos dados já tão discutidos pelos “iniciados” (acadêmicos e movimentos sociais) e, de certa forma, constantemente divulgado pelas mídias, para lembrar das desigualdades de gênero ainda existentes? Lembrar que há pouco li num jornal de Pernambuco sobre dois casos de violência contra a mulher nas últimas 48 horas e que, somente nos dois primeiros meses de 2007, já foram assassinadas 55 mulheres no Estado?

Foi então que percebi algo talvez óbvio para muitas pessoas: que denúncias de violência contra mulher e discussão referentes às questões de gênero não são exploradas apenas no dia 08 de março. Não há como negar que, sobretudo, depois da chamada “segunda onda do movimento feminista” no final dos anos 60, o discurso sobre as relações de poder entre homens e mulheres tem estado na pauta do dia do mundo, pelo menos, ocidental. E lembrando das várias fases da história da humanidade em que a mulher não era nem mesmo considerada gente, este fato por si só já é um ganho.

Neste sentido, achei interessante aproveitar esta data para homenagear a organização das mulheres. De 1857, quando as nova-iorquinas se rebelaram, para cá, estes movimentos, em suas mais diversas formas, firmaram-se como grande interlocutor do Estado e da Sociedade. Esta interlocução fica expressa nas tantas convenções e conferências realizadas para discutir a situação da mulher e nos dispositivos legais[1] criados para assegurar-lhe direitos – à igualdade e à diferença.

E mesmo sabendo que a estes dispositivos legais ainda falta uma base “cultural”, ou melhor, que ainda não conseguimos “desinventar” a tradição patriarcalista, os movimentos das mulheres conseguiram desvendar, através do conceito de gênero, as relações de poder embutidas nos discursos e práticas que “naturalizavam” a mulher como sexo frágil e rainha do âmbito privado.

Assim, preferi hoje, lembrar que apesar de lenta e gradual, a revolução feminista representa “no seu conjunto, profunda ruptura com uma tradição histórica de quatro mil anos, e assegura plenamente, ao movimento de mulheres nascido na década de 1960, inquestionável caráter revolucionário, não sendo exagerado afirmar ter ele constituído, no século XX, a única revolução que deu certo – apesar de obviamente inacabada” (ALVES, 2005, p.99).

Termino lembrando que em 1908, 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque reivindicando melhorias nas condições de trabalho e o direito ao voto. Caminhavam com o slogan ”Pão e Rosas”, em que o pão simbolizava a estabilidade econômica e as rosas uma melhor qualidade de vida. Em 2007, apesar das conquistas pontuadas, este slogan, parece-me atual para continuar guiando nossas lutas.

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[1] A ONU proclamou o ano de 1975 como “Ano Internacional da Mulher” convocando na Cidade do México a primeira Conferência Mundial sobre a Mulher, “Igualdade, Desenvolvimento e Paz”; Em 1979, foi elaborado a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher, adotada pela Assembléia Geral da ONU, em vigor internacionalmente a partir de 1981; em 1995 houve o maior encontro internacional sobre a situação da mulher, a Conferência de Beijing. O Brasil vem absorvendo estas discussões em vários documentos desde a Constituição de 1988. A criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres apresenta-se como o maior avanço nesse sentido.


 

 

Mariângela Ribeiro é mestre em sociologia pela Unicamp, professora universitária e faz parte do Gajop


 



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