AS MUITAS MORTES DE DEUS

LUCIANO OLIVEIRA

Numa reação pendular à onda de terrorismo fundamentalista que anda assolando o mundo, o ateísmo virou um boom editorial. Exemplo disso é o best-seller de Christopher Hitchens, Deus não é Grande, onde o tom provocativo é de regra. O editor brasileiro adotou-o logo no lay-out da capa, literalmente assim: deus Não É GRANDE... Experimentei dois sentimentos opostos ao lê-lo. De um lado, admiração pela coragem pessoal do autor, um jornalista inglês amigo do escritor Salman Rushdee, autor do famoso “Versículos Satânicos”, que vive até hoje escondido com medo de ser assassinado por um muçulmano disposto a ir para o céu prometido por Khomeini a quem o matasse. Hitchens diz coisas contra o islamismo capazes de ter atraído igual ira. O seu livro, enquanto defesa das sociedades liberais - aquelas que separaram a religião do estado -, é uma valiosa contribuição a um salutar neo-iluminismo.

Mas, do ponto de vista teológico - e olha que estou longe de ser um expert nesse assunto -, seus argumentos me pareceram simplórios, destinados a um público consumidor pouco afeito às discussões sobre esse assunto. Hitchens se compraz em reduzir a absurdos as leituras literais (desculpem a aparente redundância) da Bíblia, contrapondo o que ela diz aos dados da ciência. É uma empresa fácil e anacrônica, porque não há nada de novo sob o sol desde pelo menos o início do século XVIII, quando Laplace, explicando a Napoleão a mecânica celeste, respondeu da seguinte forma a pergunta do Imperador a respeito de onde ficava Deus: “Não precisei dessa hipótese”.

De fato, frente ao conhecimento moderno sobre um universo infinito e descentrado, está excluída a hipótese de uma corte celestial instalada num lugar físico qualquer do firmamento. Depois da arqueologia e da paleontologia, que teólogo contemporâneo sustenta que o mundo foi criado há 6 mil anos atrás? À parte “criacionistas” americanos, ninguém. Nesse sentido, Hitchens está metendo o pé em portas abertas faz tempo. Ele retoma a velha questão a respeito do que fazia Deus antes do primeiro dia da criação. A pergunta é uma espécie de “pegadinha” para a qual já existe resposta desde o século IV da era cristã, dada por Santo Agostinho: não existe um antes da criação, porque Deus, ao criar o mundo, criou o tempo junto com ele! E basta, porque minha curta teologia já se esgotou.

O neo-iluminismo de Hitchens repete a crença ingênua do velho iluminismo de que o progresso da ciência acabaria com a metafísica. Engano. Se conseguimos descobrir o mistério dos trovões e já não vemos nos terremotos manifestações da ira divina, há outros mistérios que permanecerão enquanto formos seres humanos, e eles continuam alimentando a sede de respostas que a ciência não dá. A morte é um deles. O sentindo da vida, outro, e as soluções existencialistas, ao invés de consolarem, acrescentam mais angústia. Para não falar do mistério dos mistérios: o do próprio ser. “Por que existe algo ao invés de nada?” Noutros termos, por que o universo existe? Questão fundamental e intransponível. Aparentemente sem sentido para o distraído homem comum, ela ilumina o paradoxo do ateu que acha absurda a existência de um Deus incriado, mas não nota que a existência de um mundo sem Deus, ou seja, também incriado, é igualmente absurda! São questões que já atormentaram pensadores do quilate de Artistóteles e São Tomás de Aquino. Elas permanecem irresolvidas, e vão continuar assim mesmo depois do livro de Hitchens.

Deus é um assunto complexo demais para ser tratado jornalisticamente. Valioso como libelo contra a violência por motivos de religião, o livro de Hitchens erra o alvo. O problema não é Deus. O problema é a instrumentalização política do espírito religioso, sua apropriação por qualquer tipo de fundamentalismo - islâmico ou cristão, que também já fez das suas. E nós outros, brasileiros, o que temos com isso? Boa pergunta para a qual há uma boa resposta. Temos no Brasil iniqüidades sem fim, mas, pelo menos, nunca tivemos guerra de religião. Nosso sincretismo religioso e nosso caráter pouco dado ao confronto criaram aqui uma experiência de tolerância religiosa que pode servir de exemplo a um mundo conflagrado por razões que não chegamos a compreender. Porque são mesmo incompreensíveis.


 

Luciano Oliveira é bacharel em Direito, mestre e doutor em Sociologia. É professor do Departamento de Ciências Sociais da UFPE e colaborador do GAJOP.



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