MÍDIA E PODER ECONÔMICO NEFASTOS

JAYME BENVENUTO LIMA JR.

Nos últimos dias a mídia brasileira tem veiculado à exaustão a posição de comemoração do mercado com o segundo turno para a eleição presidencial no Brasil. Analistas financeiros no Brasil e no exterior concluem que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, favoreceria “alguns setores da economia, com a retomada das privatizações”, além do que proporcionaria “a reforma da previdência, trabalhista, fiscal e política que o mercado deseja”. As declarações não surpreendem, mas demonstram o quanto o mercado se sente cada vez mais à vontade para condicionar o voto dos eleitores mais incautos. E tudo isso com o apoio da mídia brasileira, que claramente assumiu a candidatura de Alckmin nas últimas semanas.

O significado dos compromissos de reformas de Alckmin pode ser assim resumido numa perspectiva progressista, de quem pensa no ser humano antes do capital: entrega do patrimônio estatal a multinacionais (em muitos casos permitindo que os brasileiros daqui paguem pelo consumo de nacionais de países desenvolvidos); aumento da idade para aposentadoria e redução dos benefícios previdenciários e trabalhistas; incentivo ao trabalho autônomo (em detrimento do emprego fixo e regulamentado); e restrição do espaço político a poucos partidos com plataformas semelhantes (como os existentes nos países de democracia liberal). As chamadas “reformas mais agressivas” que o tucano favoreceria revelam uma agenda neoliberal, de direita, que não interessam a quem tem apreço pelos direitos humanos numa dimensão ampla. Revelam também que direita, esquerda e centro continuam existindo, embora seja conveniente para direita que essa imagem seja diluída, pois assim fica mais fácil dominar e enganar.

O mais grave nisso tudo é a aliança do mercado com a mídia, que serve de escoadouro da posição do “mercado eleitor”, que nas últimas semanas forçou o segundo turno com a divulgação de denúncias em relação às quais não se podem provar e que deveriam ser alvo de sérias dúvidas sobre os interesses envolvidos de todas as partes. E tudo sob o manto de guardiã da liberdade e da democracia.

Como não é legítimo que a mídia se coloque na posição de interferir nas eleições nacionais, urge que grupos organizados exijam o monitoramento internacional da mídia brasileira. A Organização das Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos, além de organismos sociais independentes precisam ser mobilizados para realizar uma observação do comportamento da mídia brasileira, de modo a salvaguardar a escolha dos eleitores livre de condicionamentos indevidos.

Jayme Benvenuto Lima Jr. é advogado e jornalista, coordena o Programa dhINTERNACIONAL, do GAJOP e do Movimento Nacional de Direitos Humanos – Regional Nordeste; e é professor de Direito Internacional Público.

 



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