DESVELAR É PRECISO

ANDRÉA LIMA

Os números são trágicos, fazem arrepiar a pele, sentir medo, vergonha, mas dialeticamente, sentimos vontade de vigiar, lutar contra a impunidade, exigir respeito, dignidade e direito. De acordo com o Observatório da Violência Contra a Mulher, são pelo menos 60 mulheres assassinadas em Pernambuco do início de janeiro até o dia 24 de fevereiro.

Considerando a fragilidade quanto à realização de direitos substantivos e a concreção de políticas públicas para as mulheres, convivemos com a certeza da escassez dos direitos humanos, da barbárie efetivada, de um ser mulher "atocaiada" por tantas opressões.

Ainda bem que somos mulheres e temos essa "força estranha" e a capacidade de raiar quando a vida insiste em anoitecer...

O tempo é de vigília. Arrumemos todos os nossos pertences mais perenes: ousadia, coragem, esperança, doçura, garra, vontades de liberdade e justiça. Agora vamos as praças, as ruas, ao Estado, ao mundo...

Lembremos das Mães da Praça de Maio: no início um protesto quase "silencioso" de poucas mães a prantear seus filhos e filhas, a exigir o paradeiro, a querer uma única notícia num tempo em que a ditadura fez "desaparecer" mais de 30 mil pessoas. Primeiro, lágrimas, depois vozes, multidão, movimento. Lembremos das mães de Acari; da Candelária; lembremos das mulheres que no seu cotidiano fazem vigílias diárias, no lar, no trabalho, na escola, na rua, temendo ser aviltada, violentada, desrespeitada, lamentando às vezes por ter "nascido" mulher. Mas nós não nascemos, como diz Simone de Beauvoir, nós nos tornamos, nós nos construímos, nos tecemos, nos colorimos, nos refazemos, nos pintamos, nos amamos, nos desenhamos... A cada traço da nossa história, a cada contorno do nosso viver, nós deixamos pistas... A nossa luta.

Isso não é uma cantata, é uma convocatória! Mulheres estão sendo assassinadas sistematicamente e, nós não podemos olhar para essa realidade e vê-la como cenário naturalizado de um território degradado no seu tecido humano e social. Não podemos olhar para esses homicídios e analisarmos como partes isoladas, mortes anunciadas, roteiros macabros que preenchem as crônicas policiais ou como "crimes passionais". Cada caso pode até ser um caso nas suas idiossincrasias, mas eles estão assentados numa irracionalidade machista, misógina e conservadora. Não podemos ficar passivas (os) diante de uma violência que vocifera nas cidades que vivem em agonia social. Não queremos mais esse registro, esses números, essas mortes, essa estatística mortificante.

A I Vigília no Recife organizada pelo Fórum de Mulheres de Pernambuco pelo fim da violência contra a mulher contou com mais de 700 pessoas e diversas entidades democrático-populares da sociedade civil. Mas, nós não temos o que comemorar. Mulheres sucumbem à violência neste país e no mundo a todo segundo. Fiquemos atentas, vigilantes, firmes.

A luta aqui não é pessoal, não é a luta do filho e da filha que perdeu a mãe morta à facadas, a tiros, a murros e pontapés; não é um movimento uníssono, mas de dores diversas, de dores muitas vezes abafadas nos vãos domésticos; são de cicatrizes expostas por açoites tão usuais. É a dor de uma vida que para sempre se cala. Será que a vida é pétrea como pergunta Drummond? Ou a "vida é uma ordem" como ele proclama?

"Todo dia é dia de VIVER", por isso vigiamos! Estaremos a espreita das omissões do Estado, exigiremos políticas públicas para as mulheres, justiça, direitos.

Nós que fazemos parte da Comissão de Ética e de Direitos Humanos do Conselho Regional de Serviço Social 14º Região (CRESS/RN), bem como toda a Diretoria da entidade, seremos mais uma voz a apoiar a iniciativa do Fórum de Mulheres de Pernambuco nas Vigílias mensais pelo fim da violência contra a mulher. A próxima vigília está marcada para terça-feira, dia 07 de março.

As vigílias em Recife devem ganhar força, a adesão de todas as mulheres, de homens que também lutam pelo fim da violência e empunham seus laços brancos. As vigílias são de olhos, são de mãos, gritos de protesto, vozes em prol da vida e da emancipação. Devemos neste momento perder o sono e na vigília, como diz o poeta, seguiremos de "mãos dadas".

Andréa Lima é assistente social; integrante do DIVAS – Instituto em Defesa da Diversidade Sexual; colaboradora do GAJOP; conselheira do CRESS/RN e estudante de Doutorado em Serviço Social da UFPE.



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