CORONEL MEIRA QUER VOLTAR PARA AS
RUAS
MARCELA VALENÇA
O título deste artigo foi também o da
reportagem do jornalista Fred Figueiroa, publicada no Diário de
Pernambuco do dia 26 de outubro. A comprometida matéria (para não
começar o texto utilizando palavras desagradáveis) é
iniciada com um prólogo que em momentos de maior fragilidade emocional
me faria chorar: “é uma reportagem com uma pessoa que, como
poucas, conhece a violência de Pernambuco de perto, de dentro. Esta
será a reportagem com um coronel e com um cidadão. Um policial
que não demonstrava medo quando atuava em alguns dos mais violentos
conflitos sociais. Um pai que não esconde o medo de saber que os
seus filhos também param em sinais de trânsito vermelhos”.
Farei agora o meu prólogo. Para quem anda meio esquecido, Coronel
Meira é aquele que, à frente do Batalhão de Choque
promoveu vários atos de violação aos Direitos Humanos.
Só para citar alguns, podemos lembrar-nos das investidas contra
agricultores, movimentos sociais, parlamentares e estudantes - esta última
lhe rendeu um processo de abuso de autoridade, aberto após os protestos
estudantis, em 2005, quando Meira foi acusado de agir com violência
para reprimir as passeatas.
Após esses episódios, em maio de 2007, foi convidado pelo
governador Eduardo Campos para assumir a Diretoria-Geral de Operações
da Polícia Militar de Pernambuco, permanecendo neste cargo até
dez de julho do corrente ano, quando deu entrada no requerimento de transferência
para reserva. Embora tenha mais de 30 anos de atividade funcional, o oficial
não poderá ter seu pedido atendido, pois sua aposentadoria
(e merecido descanso) está vinculada ao término do processo
já citado.
Mas espere aí, ele não quer descansar não! A reportagem
veiculada foi muito clara. Segundo os dizeres do próprio Meira,
“sou um cidadão e acho que posso contribuir muito para a
segurança pública daqui. O estado investiu em mim, me formou
para isso, e estou pronto para voltar”.
No entanto, o que mais chama atenção, não é
o desejo que o Coronel tem de regressar à ativa, mas a motivação
desse desejo, ou seja, o filme “Tropa de Elite”. De acordo
com Meira: “O bom policial ficou de peito lavado. Pela primeira
vez, eu senti que a sociedade começou a entender que existem os
dois lados da polícia. O lado do bem e o do mal”.
Assisti ao filme recentemente, mas talvez não tenha prestado a
atenção devida. Seria o lado do mal formado pelos policiais
da polícia comum que realizam serviço de segurança
particular, que não têm “amor à farda”,
que se associam ao tráfico, se corrompem e tornam-se também
“bandidos”? Seria o lado do bem formado por aqueles policiais
pertencentes à Tropa de Elite que sobem o morro atirando indistintamente,
matando inocentes, torturando, aterrorizando? Ética meio confusa
essa sua, não é Coronel? Não consigo enxergar o que
o senhor denomina de o lado do bem, a explicação estaria
na minha miopia?
Infelizmente, ao que parece, nem Meira nem boa parte da população
que assistiu ao filme não foram acometidos pelo mesmo problema
oftalmológico. Contudo, na fala do Coronel existe uma verdade que
não pode ser negada: a população hoje está
aplaudindo de pé não só a obra de ficção,
mas também a ação truculenta da polícia, que,
contra bandido, pode usar os mais bárbaros métodos de tortura.
Vale destacar que não acredito que a truculência seja sinônimo
de competência, pelo contrário, é o primeiro sintoma
de uma polícia despreparada.
Ao tratar sobre os mandos e desmandos e idas e vinda do Coronel Meira,
não quero ter como foco de análise a conduta de um indivíduo,
antes pelo contrário, quero levantar a discussão sobre qual
Justiça e Segurança estamos querendo construir. Reduzir
a discussão a essa pessoa no singular é no mínimo
ser simplista. É esquecer que, em primeiro lugar, ele só
assumiu o cargo de Diretor-Geral de Operações da PM porque
foi convidado (e, ao que parece, não tomou o cargo à força,
segundo informações do governo, foi nomeado por conta dos
seus méritos – até hoje me pergunto: quais?) e depois,
é fazer de conta que não sabemos que o Estado brasileiro
é um dos maiores violadores dos Direitos Humanos.
Parece que já estamos acostumados com um Estado que negligencia,
que fere, que mata. Estamos tão familiarizados com a barbárie
que conseguimos achar explicação para justificar a violência
e a tortura, desde que as mesmas sejam direcionadas para uma determinada
classe social.
Por outro lado, quando a violência atinge camadas mais abastadas
da sociedade, logo ganha visibilidade nos meios de comunicação
e gera protestos, mobilizando, assim, formuladores e executores de políticas
de segurança pública.
A sedimentação da cultura da crise faz criar uma forma de
sociabilidade e uma forma de estar no mundo que passa a oferecer condições
objetivas para o fortalecimento da violência e para a estruturação
de um “Estado forte” que tem no poder das armas a justificativa
da sua existência.
No entanto, o meu maior receio, na verdade, não é a volta
de Meira (alguém duvida que isso aconteça?). Temo que a
moda do “Movimento Cansei” pegue e que a população
pertencente à elite Pernambucana - cansada de tanta violência,
cansada de não poder ostentar seus bens para que a classe subalterna
se sinta envergonhada de sua incompetência e preguiça - saia
às ruas, em seus carros importados (e blindados), vestida de branco,
com belíssimas faixas e entoando um grito emocionado clamando:
Volta Meira! Volta Meira!
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Marcela Valença é assistente social e faz
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