O MISONEÍSMO DA POLÍCIA.
RODRIGO PELLEGRINO DE AZEVEDO
Gostaria de não exagerar, exceder-me nas ponderações, mas a conclusão, outra não pode ser, senão a triste constatação de que estamos ilhados no Recife, quiçá sitiados em Pernambuco, cercados por um mar de agentes públicos incapazes de comandar a Segurança Pública em nosso Estado.
Não vou indicar dados, (é preciso?), mas sinto-me obrigado a destacar os recentes episódios que colocaram em rota de colisão a cúpula da Segurança Pública em Pernambuco e o Movimento de Direitos Humanos. Eis os fatos:
(O primeiro assassinato) Um corajoso policial que no cumprimento de sua função faleceu em decorrência de um tiro disparado por um assaltante.
(A outra morte) O mesmo assaltante que matou o policial, após “alta” (baixa?) hospitalar (com a palavra o Cremepe e a Direção do Hospital da Restauração), veio a falecer no trajeto para a prisão.
Quem deveria morrer? - Ninguém!
Quem deveria prender e garantir o fim do inquérito? - A polícia!
Quem foi condenado? - A nossa sociedade!
Ponto Final!
Não me venha os agentes de segurança dizer que teria sido legítima a morte do assaltante! Não queiram insinuar que a morte foi um bem, por que não foi! Não se venha dizer que a Justiça se cumpriu porque não se cumpriu!
A questão é simples, não é complexa. Quem está exercendo a função de proteger a sociedade tem que saber que age, como todo cidadão, de forma limitada. Deve agir dentro dos parâmetros da Lei. Qualquer ato ou insinuação além desse patamar constitui-se em crime!
Pasmem! Uma Delegada, querendo ser “irônica”, com ar blasé, perguntou ao jornalista que a entrevistava, num sorriso misto de sarcasmo e sadismo, se (após a morte de um outro assaltante por um transeunte) o Movimento de Direitos Humanos iria investigar quem praticou o crime?
Quem deve fazer isso é ela! Se não o faz de forma deliberada, comete sim, ela, um crime! Quem vai apurar isso?
Mortes em confronto com bandidos são possíveis. Morrem bandidos e morrem policiais. Mas admitir o assassinato sob a proteção do Estado é admitir a barbárie.
Hoje se mata o bandido pobre – talvez tão pobre quanto o policial que vive sacrificadamente fazendo “bico” de segurança em bares, eventos, festas sociais, etc. Amanhã, quem poderá morrer seremos nós. Cidadãos comuns, que eventualmente poderemos vir a nos insurgir contra um assalto, ou contra uma arbitrariedade de algum agente público de segurança.
O fato do chefe de Polícia Civil, e depois o “coro” de mais alguns delegados, estar querendo jogar a população contra o Movimento de Direitos Humanos, como se a culpa pela ineficiência, pelos assassinatos, pela corrupção sistêmica de nossos aparelhos repressivos pudesse (devesse?) ser atribuída à sociedade civil, é um absurdo, somente visto e lembrado nos anos mais negros da repressão instalada no Brasil.
Onde estamos? Apenas observo, nos últimos meses, a cúpula de nossa Segurança Pública fazer da mídia o seu confronto com a insegurança, lançando dados imprecisos e insidiosos sobre a diminuição da violência. Tenha paciência!
Dizia no início que não gostaria de exagerar, mas é preciso que haja alguma manifestação contrária de ao menos alguns Delegados de Polícia em relação à postura, no mínimo irresponsável, da Chefia de Polícia Civil da Secretaria de Defesa Social.
Se há alguém contra a violência dentro do nosso “Sistema de Segurança” que se manifeste! Que diga que estamos vivendo à mercê de nossa própria sorte, que a Polícia Civil e a Militar não têm condições de enfrentar a violência instalada em nossa cidade, que faltam recursos, que faltam salários, que falta treinamento, que falta estrutura, que falta tecnologia, que falta inteligência, que falta GOVERNO para garantir o direito de ir e vir de cada cidadão Pernambucano. Se não têm coragem de fazer essa crítica por escrito, que o façam em “off” a algum jornal! Mas não se calem!
Duas seriam as hipóteses: ou o nosso “Sistema de Segurança” tem aversão às mudanças (razão do título) – pois desde que me entendo por gente ouço falar em corrupção, ineficiência, falta de preparo, falta de salário, falta de estrutura da Polícia; ou então todos os nossos políticos se servem da insegurança para “bravatear” e perorar contra os adversários, que se ocupam em criticar os antecessores, que já se ocupavam de criticar outros ex-aliados etc, etc, etc.
Política Pública de Segurança Já!
Outro dia, ainda no calor dos debates acerca do “sim” ou do “não” (para o nada), meu amigo Sergio Ferraz me indagava se eu teria sido seqüestrado de minhas idéias e ideais, e estaria preso, ilhado em meu apartamento. Respondo agora: - Estou sim, amigo Sergio.
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Rodrigo Pellegrino de Azevedo é advogado e consultor jurídico.
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